domingo, 22 de agosto de 2010

Fizeste uma narina
de alívio
quando te jardinei
o sobrolho

bonita à esquerda
soube como foi
que gostava de ti.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Sonho um

Cinco minutos. Michael puxou o penteado para trás e pousou o haltere. Não se deve deixar as senhoras à espera e, afinal, os gritos já se ouviam bem ao longe. Aquela, a loura do primeiro balcão, não consegue esconder a sapeira pela madrinha, já a outra, bate palmas que se farta. Está na hora, diz o ponteiro grande, e o followspot aponta para as portas para que ninguém mais saia. "I'm on the wire...". Sacode, sacode. Vou chegar atrasado. Michael acena às filas, umas sentadas, outras de pé, e à tuba atrás de si. Está inchado, com duas rodelas de suor penduradas nas mangas, e ainda é só o segundo número. "Remember to forget e não sei quê...". Chego mesmo no fim. Talvez não me tenha visto. Olá, Carolina. Com licença, Maria. Dona Ivone, como está? Denise já estava muito encostada à parede, mas lá consegui passar. Encostei a boca e disse. Peço desculpa, as senhoras devem estar a pensar, quem é este jovem que não deve mudar de calças há uma semana e que está interromper o espectáculo do Michael. Silêncio. Ainda bem que chegaste. Olá Michael, desculpa lá, estou só a apertar o laço, já ponho as mãos no microfone. Deixa lá, deixa lá, olha, a tua namorada está cá hoje. A sério? Sim, não queres cumprimentá-la? Não vale a pena, já a vi. Anda, vá. Ela encolhe o queixo e vem até junto de mim para me dar um beijo. Vejo no monitor de palco que fiz mal a barba, mas também não faz mal. A testa de Michael parece pingar azeite, enquanto diz. Bem, mas agora é a tua vez. É verdade, Michael, obrigado senhoras e senhoras, vou começar com uma história. Já repararam. Alguém me trocou o guião por um tabuleiro de açorda, mas como é que eu descalço esta bota. Já repararam. Artigos mal colocados, estrangeirismos sem descrição fonética, grumos por todo o lado, nem um buraco para o velho respirar. Vou ter de operar, senhoras e senhoras. Pego no garfo e abro uma linha na papa, ao nível da boca. Debaixo da açorda, o velho ainda respira. Pareceu-me ouvir algo. O que disseste. Não consigo ouvir por causa do barulho dos autocarros na rua. Dois braços moles pegam-me pelas costas, mas o coração já parou. "Acorda".

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

És perfeita
Mas sem mim
Obrigado caneta
Salvaste-me a vida
Eu é que sei.
Este ácido
Não é mau
Acordem-me
Quando o canalizador
Telefonar

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Ficaram duas flores
Pelo meio
Tenho de tratar-lhes
Dos vasos
Hoje nem me lavei
Quando olho para estes
Dentes todos
Arreganham-se-me as ondas
Já não tenho medo
Agora só nas férias

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Obrigado por
Não se lembrarem
De mim
Quando escreveres sobre
A toalha
Certifica-te se está molhada
Toma atenção
Leva lá o que quiseres
Eu é que sei
Se me rio disto quando acordar.

domingo, 13 de setembro de 2009

Tigre
Estás todo almofadado
Nada disto é único
Quando gritares
Levanta a cabeça
E eu fico aqui à espera
Que o frio me devolva
As patas.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Quando for a enterrar
Deixem-me de barriga
Para baixo
Para que não vos mije
A cara
Só peço uma mesinha de
Cabeceira
E que sacudam os pés
À entrada.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Chega o carro
que nos vem buscar
já abre os olhos
a furar o nevoeiro.

Pega-nos pelos pés
e depois na cabeça
com as suas lagartas.

Lá vai o enxertado
que sua dos dedos.

Hoje almoçou
quatro grãos de areia
e dois copos de resina.
Se tiveres, és o salvador
babado na areia
a luar caramelo
senta-se a ver
tudo de seguida
como marchas de sapateiras
a bicar nas ondas
mais depressa
a torre está a fugir.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Ai era onanista
Então toma lá
Nessa cabeça verde
Coisas com medo
Que saem da parede.

domingo, 14 de junho de 2009

Andamos todos
a escrever
em montanhas

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Deito-me grato
com o mundo
que deu
momento granítico
para perder
quero uma meia
de leite.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Ó Vasco
Tu tens dentes
Ó João
Tu tens patilhas
Ninguém tem nada
A ver com isso

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Adriana. Ouço um ronco
A crescer
Fundo nos teus
Caracóis
Não te esqueças
Apaga a luz
Depois da guerra

domingo, 12 de abril de 2009

Nada
Vai parar
Até que alguém
Parar
Te

sexta-feira, 27 de março de 2009

Receita para o revelhão:
Procurar na enciclopédia
cicatrizes a andar
de moto
deixa alourar
e dormir para
o lado

segunda-feira, 16 de março de 2009

Não sei quantos
Comprimidos
Hei-de dar a
Este elástico
Autodidata
Até que estale

segunda-feira, 9 de março de 2009

Quero ser o filho
de altos prédios
não sei quando os
teus começaram
a bater mal
vou dar-te o
escorrega

terça-feira, 3 de março de 2009

Lembro a nossa
Infância
Como duas caricas
Torradas na praia
Fechando todas as bestas
Os primeiros poemas da velhice

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Eu hei-de dar esta barba
A quem saiba penteá-la
Está partida a esta luz
Mas já lá estava.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Ó espelho da alma
Tu mereces
Pendurado a secar
Contra a parede

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Vi a velha a olhar
Espantada
Ai que a amo
À janela
Era já agora
Não minto
Saciado

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

És um tapete
Pontiagudo
Começaram as aulas

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Sanitas, não tenham
Medo destes olhos
Vou limpar este
Almoço
Às toalhas

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Tive a sorte
Das ruínas
Japonesas
Num armário
Como quem
Escreve
Mão gelada no meu estômago quente

domingo, 25 de janeiro de 2009

Não nos deixes
Sozinho nesta
Aventura

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

O quê?
Tens pirilampos
Dentro da tua
Toca?

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Cão.

Preto.

Ácido.

Romãs.

Aquedutos, mas sem penas nem grasnam.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Meus amigos
Sei onde vos
Deixei.
Hei-de voltar
Para apanhar
Com o remo.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

São cantigas
Ó revoltado
Pelo volfrâmio
Vive-se
E morre-se

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

A quem me encontrar,
Por favor, que diga ao
Meu aquecedor
Que não escrevi melhor
Porque estava
Com asma.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Ando desconfiado de
Umas garrafas de
Água. Deixa-me
Arrumar estas
Almofadas.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Demasiados
Adjectivos
Aterrorizados. A fugir
De mim.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Obrigado
Por estas
Folhas em
Branco

sábado, 3 de janeiro de 2009

Deixa-me dormir
Ao teu lado
Bolacha
Para toda a
Gente ler

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Pára, Catarina
Estás aí ajoelhada
De lecas, com medo
Amarela
Não me faças
Mais comichão
Na barriga

domingo, 28 de dezembro de 2008

A última coisa
Doce que se
Escreva são
Dentadas para
Vocês esquecerem
São baldes de água
Garrafas de urina
E ergo estas
De mar alto que sinto
Onde navega o pão
Meu amigo

sábado, 27 de dezembro de 2008

Não sei o que é
Em ti
Essa ténia dos sons
Que me quer a rir
Por todo o lado