sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Depois de te acordar
Acordei
Com granizo e serras

E o jardineiro da cidade
Cavacava
A fugir das pedras

Entrou na máquina
Da vizinha
Para ver se a via

Não dormia com aquilo
E lá viu
O que lá queria

Fotografias dela
Toda aberta
Quando foi de férias

E da filha pequena
Despida
Na cama do outro

"Enquanto houver alcaria
Durmo
Que nem uma pedra

"Se eu não beber
Não durmo
Pelo menos não tremo.

Eu gosto é de ter
A cabeça cheia"


terça-feira, 23 de dezembro de 2014

O natal é uma árvore

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Não há ouro nos teus olhos
Só a luz picada das máquinas
Que escondem outro sol

Rara-se o brilho
Aos pontos
Pela máscara de escrever

Deixa o selvagem
A selva
E as órbitas ocas

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Todos os anos morrem
Lanternas novas

Eu quero a luz
E a luz quer-se simples
A transbordar o copo
Não faz mal ser a pilhas

Estrelas marrecas
Já foi tudo dito
Ou bem dito
Nem mal dizer resta
Atrás do picadeiro
Moro eu e outros
Filhos únicos
Façam poemas
Plantem chouriços
Vão ao teatro
Pensei que quisesses estar à vontade
Mas fazes o meu rabo sorrir
Sempre que me ligas
Preciso de humidade na vida
Escorre-me o amor desses lenços
Entrega-me à palma
Muda-me a água antes
Que alguém se afogue
Tenho uma ideia
É melhor não a estragar
Tenho uma máquina
Corrente
E dois pentes às riscas
Falta-me um lápis
Para ser bonito
Tenho um prato liso
Enterrado no quintal
Espera que já te apanho
Com os dentes a cheirar a alho
E óleo a escorrer das patas
Falta um de dezembro para o passado
Falta um outono para te descascar
É o fim, não me mintas

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Se o teu sangue é vermelho
Porque não paro de transpirar?
Não paro eu de brincar aos peixes
De roubar do prato para a boca
Porque hiberno com este cheiro a alho?
E te ausculto com as minhas pinças
Olho o que tenho à solta
E ponho tudo no carrinho

Anda, leva-me à feira
Enquanto sou uma máquina
Teme comigo o futuro
Porque não paro de estar contigo?
Amanhã acordamos às sete e meia
E estendemos a cama à vela
As notícias na despensa
As janelas do avesso

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Quando eu nascer
Dêem-me fruta
Albardem-me com sacas às cores
Desfaçam-me à vontade do gomo
Cuspam-me as pevides para a terra
Descasca-me a laranja
Para eu aprender
Esta dor que tenho
Tinha-a no pé
Esta baba que tenho
Morde-me as canelas
Quando nasci
Disseram-me para estar sentado

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Tossia-se todo e tossia-se a gente
Caso a humanidade se autodestruísse
Eu digo aos meus pais o que os meus filhos me disseram

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Serraram o pai ao meio
Na cama vagada cedo
Em favos aguardam
Que desinche a juventude
Essa teta que nos seca

E nos finta às metades
Carrega-nos de moléstia
Tempestuosa e certeira
Pelas covas do rio
Mais perto e mais cheio

sábado, 7 de junho de 2014

Manhãs de furacão
Tardes tropicais
noites de lobisomem

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Tantos anos sem saber
A que cheira o meu nariz

domingo, 25 de maio de 2014

Ódion
Xenon
Esguelhofobia
O quarto de um peixe chamado Vanda.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Os alicates são nossos amigos.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Onani onanão
Qualquer coisa com a mão

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Dei um salto de pernas de rã
Fui ao fundo
Mortiço e azul
Apontei os dois olhos
Às barras da mira estática
Que dava o tom molhado

Mais uma remada crespa
Que lá em cima pouco brilha
E não se vê ninguém
Que me deixe aprender sozinho
Põe-me os óculos, Mariposa
Leva-me daqui para fora

terça-feira, 1 de abril de 2014

Gosto de carneiro
Com corda permanente
Ligado à corrente
Não se perde na calenda

Dez mil passos a pé
Gastam gastam gastam
Dez mil passos a pé
Guardam-te as sandálias
De lanídeo almiscarado
A realidade
Não me mete medo
É uma colher inibidora
Como outro utensílio comparável
Sei que um dia vai parar
E largar-nos no passeio
Gosto deste mundo sem fios
Chove outra vez
Vou pôr o lixo a secar
Em caso de náusea
Parta o iogurte
Na temporada onze
Onde vi um lagarto no muro
Bandos de tubarões tristes
Flutuaram na piscina
Inflados do teu gás
Vou imolar-me com cloro
Já não é preciso nada
Andreia, estou a pensar para mim
Não ponhas picante no sumo das outras
Derrete-te antes no meu licor
Que não embriaga uma lesma
Não são maneiras de começar uma guerra
Somos lobos, é verdade
E a janela foi lançada ao lobos
Como uma posta de carne
Atacou-me pelas costas
E fiz-lhe frente sozinha
Que marcas me deixaste?
É mentira
Adeus, janela minha
Sou um garfo inspirado
Olhem para mim
Estou quase a acabar
Hoje soube que estava tudo bem
Não soube nada
E lavei-me debaixo da pele
Com o melhor detergente
A vigília
É diluidora
Da igualdade
A fartura
É engomadora
Da liberdade
A preguiça
Depois do almoço
A desvergonha
É um colectivo de cabras mimadas
É por isso
Que vamos jogar à espada
É uma ilha
É uma ilha
É uma ilha, estúpido
Começar uma frase por bem
Não a torna boa
Só há decência nas palavras
Pudim, espadachim e alicate
Trouxeste-me ambientador
Amigo das plantas
Não te consegui o obrigado
Tu pensavas que eu não era capaz
De dizer o nome desta gente toda
É bem feita
Para a tua cara de cratera
Enquanto subo ao Vesúvio
Vais serrando os apertos de mão
Medir tudo em vidas
Em campos e mundos
Faz mal aos meus dedos
É pasto para a vergonha
Emagrece famílias

Deixar a janela aberta
Não é mentira
Sentar à máquina
Não é batota
É matar a fome


Cansado do mesmo azul de sempre?
Não é normal.

sábado, 19 de março de 2011

Sonho quatro

Sempre sem reparar no rapaz de caracóis, continuei o diálogo com Andrerens. Que bom voltar a ver amigos de há tanto tempo. Não tenho estado contigo. Eu também não, sabes. É natural. Tenho é estado com a Catarina. Está na mesma. Eu acho que está igual. Pois, essa não melhora nem piora. Igualzinha ao que era na escola, quanto a mim. Vamos é afinar isto que está quase na hora. Somos instrumentos de precisão, que raio. Somos bestas do espectáculo, afinal. Cangurus de palco, feras de carga, só estamos bem a caminhar sobre o fio e com os harmónicos ali, pimba, todos no sítio.

O teu já está? Só mais um toquezinho aqui. Embora. Lá está ele a exibir-se mais um bocadinho. Como um melro que dá o alerta, a amiga do rapaz de caracóis ia lentamente insinuando a conversa. Jonatã continuava sem olhar para mim, seguindo o seu raciocínio de costas com costas, como se estivéssemos os dois numa espécie de confessionário trocado, eu a apertar os parafusos e ele embrenhado num murmúrio que só a custo entendi. Têm de conhecer o Jonatã, dizia ela, enquanto o rapaz continuava o recito. “O meu pei, o meu pei, aquilo é que era um pei!”, dizia num atropelo de comoções. Eu, voltado para Andrerens, permanecia em tom de aquecimento.

Sabes que todas as irmãs mais novas dos meus amigos têm o nome de Inês. A sério? Parece impossível, deve ter sido o nome típico das segundas filhas nessa altura. Pois, tens razão, eu também era para me chamar Inês, mas depois tiveram um rapaz. Entendo-te, se tivesse os nomes das minhas avós, seria Libânia ou Emília. Formidável.

“O meu pei construiu esta casa com as duas mãos.” Alto. Isso não são modos de um convidado. Saiba o jovem que esta casa é da minha família. Passaram todas as férias aqui desde os anos 70. Decido-me a mostrar-lhe as fotos desses Verões azarados, ora deixadas sobre os móveis ou bem apertadas dentro das gavetas da cardência.

Já descomposto, Jonatã deita as mãos aos álbuns. “Ele está aqui”. Remexe nos sacos de lojas, perde-se em coisas de escola impecavelmente organizadas, ou plásticos com cartões de boas festas por preencher. “Eu sei que ele está”. Farto da cena, tento lembrar-me do nome.

João.

Não.

Jonathan, digo no meu melhor inglês. Sai pelo arco da varanda para o jardim, já desorientado, ou talvez atraído pelo cheiro a sardinhas. Lá fora, os outros músicos discutem o estado da relva e a hora a que o sol se põe, para que não bata muito de frente quando chegar a altura. Saio também e puxo-o pelo braço. “O meu nome é Jonatã”. Está bem, mas não me desarrumes muito as coisas que a minha mãe tem isso tudo no sítio.

A 18 de Maio de 1980, às 11h30, a lava assentou sobre a colina, exactamente um dia e um mês depois da erupção. Deu um pinheiro e uma macieira.

terça-feira, 1 de março de 2011

Preciso de um. Fato-de-treino.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Sonho três

Esfreguei os olhos e bocejei por causa da hora. Era dia de pôr as coisas a lavar e ainda não me habituara ao frio da sala das máquinas. Ao meu lado, o vizinho enfermeiro colocava um cesto na sua.
- Boas, Vítor. Penteado novo?
- Toma.
Ao princípio nem vi o que era. Estendeu-me só a mão fechada.
- No princípio do mês, trato sempre de correr as farmácias e receber os meus 10%.
- O que é isso?
Uma pen. Não percebi. Não lhe pedira nada.
- Está tudo limpo, é só ligar. Tens aí tudo o que precisas. Além disso deixei o meu número directo, se estiveres aflito.
Do outro lado da janela, um beija-flor cruzava a cacimba da manhã para ir trabalhar.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Sonho dois

Tiro um Agros do frigorífico e vou chupando devagarinho à espera do brainfreeze. A festa não aquece nem arrefece. Os aperitivos chocalham nas tigelas, dois gajos vêem televisão, a dona da casa quase ronca no sofá. Pego no telemóvel e ligo a dizer que vou chegar mais tarde. "Mas amor, eu prometi que vinha". "Não percebo porque insistes. Ainda se fosse um jantar para impressionar a patroa". "Sabes muito bem que nunca a vi. Até podia estar aqui..." Ela vira-se. "... à minha..." Perde um caracol do cabelo. "... frente..." Morde a palhinha. "... que... "Olá, Jorge". "Querida, tenho de desligar", sussurro já com a boca a beijar o visor.
O fecho aberto sobre o peito mostrava o fio de prata e falávamos como velhos conhecidos. "Esta música faz-me lembrar". "Pois é, não sabia que também que era crítico musical". "Ora, sabe que". Da única vez que nos cruzáramos na sala das facturas, não tinha reparado em como era atraente. Os aros compridos e dourados nas orelhas eram dignos de uma colónia de macacos equilibristas e realçavam-lhe o caramelo dos olhos. "Foi vê-los ao Coliseu?". "Deixe-me explicar-lhe desta forma, se eles tivessem mais uma guitarra eram uma harpa". A TV passa aquele concurso de misses e as eleições de amanhã. Ela regressa com mais uma sandocha.
"Sabe Teresa, estava eu aqui preocupado com a roupa e afinal o seu fato de treino é igual ao meu". "Tirei a primeira coisa que estava à mão". "Já não se faz este modelo". "É verdade". Deita-me um olhar maroto no caminho para o carro. Na aparelhagem ouve-se o Élvio que diz "Eu canto, eu canto, canto a amar", sobre uma versão de "Woodpeckers From Space". Até à próxima reunião de balanço, miúda.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Hoje acordei com o esquentador ligado.
Até sinais de neve
muito bem penteados

Pois, realmente camarada
Não voltará a esta cama

Tens de abrir os olhos
Então, o peixe
e a senhora desta fruta toda
vai tudo a beber vicas.

domingo, 22 de agosto de 2010

Fizeste uma narina
de alívio
quando te jardinei
o sobrolho

bonita à esquerda
soube como foi
que gostava de ti.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Sonho um

Cinco minutos. Michael puxou o penteado para trás e pousou o haltere. Não se deve deixar as senhoras à espera e, afinal, os gritos já se ouviam bem ao longe. Aquela, a loura do primeiro balcão, não consegue esconder a sapeira pela madrinha, já a outra, bate palmas que se farta. Está na hora, diz o ponteiro grande, e o followspot aponta para as portas para que ninguém mais saia. "I'm on the wire...". Sacode, sacode. Vou chegar atrasado. Michael acena às filas, umas sentadas, outras de pé, e à tuba atrás de si. Está inchado, com duas rodelas de suor penduradas nas mangas, e ainda é só o segundo número. "Remember to forget e não sei quê...". Chego mesmo no fim. Talvez não me tenha visto. Olá, Carolina. Com licença, Maria. Dona Ivone, como está? Denise já estava muito encostada à parede, mas lá consegui passar. Encostei a boca e disse. Peço desculpa, as senhoras devem estar a pensar, quem é este jovem que não deve mudar de calças há uma semana e que está interromper o espectáculo do Michael. Silêncio. Ainda bem que chegaste. Olá Michael, desculpa lá, estou só a apertar o laço, já ponho as mãos no microfone. Deixa lá, deixa lá, olha, a tua namorada está cá hoje. A sério? Sim, não queres cumprimentá-la? Não vale a pena, já a vi. Anda, vá. Ela encolhe o queixo e vem até junto de mim para me dar um beijo. Vejo no monitor de palco que fiz mal a barba, mas também não faz mal. A testa de Michael parece pingar azeite, enquanto diz. Bem, mas agora é a tua vez. É verdade, Michael, obrigado senhoras e senhoras, vou começar com uma história. Já repararam. Alguém me trocou o guião por um tabuleiro de açorda, mas como é que eu descalço esta bota. Já repararam. Artigos mal colocados, estrangeirismos sem descrição fonética, grumos por todo o lado, nem um buraco para o velho respirar. Vou ter de operar, senhoras e senhoras. Pego no garfo e abro uma linha na papa, ao nível da boca. Debaixo da açorda, o velho ainda respira. Pareceu-me ouvir algo. O que disseste. Não consigo ouvir por causa do barulho dos autocarros na rua. Dois braços moles pegam-me pelas costas, mas o coração já parou. "Acorda".

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

És perfeita
Mas sem mim
Obrigado caneta
Salvaste-me a vida
Eu é que sei.
Este ácido
Não é mau
Acordem-me
Quando o canalizador
Telefonar