sexta-feira, 10 de abril de 2015

"Estas nuvens são boas
Para fotografar a preto e branco"
Despediste-te de mim

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Isto é consigo
Vamos transformar as manhãs
Nos nossos dias
Um, dois, três,
Mijei as calças
Continua a ver touros?
Não sabe mais o que fazer?

quinta-feira, 26 de março de 2015

Alto, disse a montanha
Levem-me daqui para fora
Antes que alguém caia

Mas não vês aí de cima
Dessa encosta cansada
Que não tens terra para andar?

Há uma razão de aqui estar
Está no topo do quilimanjar
E não rima com nada
Há bóias que chiam em terra
À espera de conversa
E funâmbulas atiram
Mísseis à memória anfíbia
Das gaivotas que as levam

No banho tudo é melhor
Perde o ar amarelo
Mas a lama não lhes passa
Seca as penas e vira
O olho do mar para dentro

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

O cavaleiro mutante
Senta-se à espera

Que o caldeirão arrefeça
Que a gordura desponte
Que a ternura se derreta

Que assim não pode ser
Assim
Na cevada ardente

Põe o chapéu a meio da tarde
Dá o cavalo ao almoço
Esfrega as cucas da tia

E não teme o caçador
A missa
E os rastejadores de estrada

Assim
Como assim
Voam-se os campos

Que a vida é breve
E ele sabe a fruta

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Aquele banho de poço
Que não tomámos
Não volta às águas

Aquele sal misterioso
Que veio na conta
Não tinha desconto

Aquele calamar sem cor
Quando fechamos os olhos
Já lá estava

Aquele anúncio de tintas
Do arlequim flautado
Não era uma piada

Aquele dente coroado
Sorriu
E soltou amarras

Aquele buraco na memória
Tem mais espaço
Para espreguiçar-se

Aquele desjejum de sábado
Está aqui morto
Ao meu lado

Aquele regresso a casa
Não se faz
Sem fazer as malas

Aquele vento de oeste
Enche as velas
Com o que disse

Aquela vagem de ferro
Aconchega-me
Ao dormir

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Há cães que nascem para ser pastores
Há cães que levam ovelhas ao suicídio

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Posso fazer-te uma pergunta?
Porque é que não gostas do Marujo?

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Depois de te acordar
Acordei
Com granizo e serras

E o jardineiro da cidade
Cavacava
A fugir das pedras

Entrou na máquina
Da vizinha
Para ver se a via

Não dormia com aquilo
E lá viu
O que lá queria

Fotografias dela
Toda aberta
Quando foi de férias

E da filha pequena
Despida
Na cama do outro

"Enquanto houver alcaria
Durmo
Que nem uma pedra

"Se eu não beber
Não durmo
Pelo menos não tremo.

Eu gosto é de ter
A cabeça cheia"


terça-feira, 23 de dezembro de 2014

O natal é uma árvore

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Não há ouro nos teus olhos
Só a luz picada das máquinas
Que escondem outro sol

Rara-se o brilho
Aos pontos
Pela máscara de escrever

Deixa o selvagem
A selva
E as órbitas ocas

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Todos os anos morrem
Lanternas novas

Eu quero a luz
E a luz quer-se simples
A transbordar o copo
Não faz mal ser a pilhas

Estrelas marrecas
Já foi tudo dito
Ou bem dito
Nem mal dizer resta
Atrás do picadeiro
Moro eu e outros
Filhos únicos
Façam poemas
Plantem chouriços
Vão ao teatro
Pensei que quisesses estar à vontade
Mas fazes o meu rabo sorrir
Sempre que me ligas
Preciso de humidade na vida
Escorre-me o amor desses lenços
Entrega-me à palma
Muda-me a água antes
Que alguém se afogue
Tenho uma ideia
É melhor não a estragar
Tenho uma máquina
Corrente
E dois pentes às riscas
Falta-me um lápis
Para ser bonito
Tenho um prato liso
Enterrado no quintal
Espera que já te apanho
Com os dentes a cheirar a alho
E óleo a escorrer das patas
Falta um de dezembro para o passado
Falta um outono para te descascar
É o fim, não me mintas

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Se o teu sangue é vermelho
Porque não paro de transpirar?
Não paro eu de brincar aos peixes
De roubar do prato para a boca
Porque hiberno com este cheiro a alho?
E te ausculto com as minhas pinças
Olho o que tenho à solta
E ponho tudo no carrinho

Anda, leva-me à feira
Enquanto sou uma máquina
Teme comigo o futuro
Porque não paro de estar contigo?
Amanhã acordamos às sete e meia
E estendemos a cama à vela
As notícias na despensa
As janelas do avesso

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Quando eu nascer
Dêem-me fruta
Albardem-me com sacas às cores
Desfaçam-me à vontade do gomo
Cuspam-me as pevides para a terra
Descasca-me a laranja
Para eu aprender
Esta dor que tenho
Tinha-a no pé
Esta baba que tenho
Morde-me as canelas
Quando nasci
Disseram-me para estar sentado

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Tossia-se todo e tossia-se a gente
Caso a humanidade se autodestruísse
Eu digo aos meus pais o que os meus filhos me disseram

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Serraram o pai ao meio
Na cama vagada cedo
Em favos aguardam
Que desinche a juventude
Essa teta que nos seca

E nos finta às metades
Carrega-nos de moléstia
Tempestuosa e certeira
Pelas covas do rio
Mais perto e mais cheio

sábado, 7 de junho de 2014

Manhãs de furacão
Tardes tropicais
noites de lobisomem

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Tantos anos sem saber
A que cheira o meu nariz

domingo, 25 de maio de 2014

Ódion
Xenon
Esguelhofobia
O quarto de um peixe chamado Vanda.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Os alicates são nossos amigos.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Onani onanão
Qualquer coisa com a mão

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Dei um salto de pernas de rã
Fui ao fundo
Mortiço e azul
Apontei os dois olhos
Às barras da mira estática
Que dava o tom molhado

Mais uma remada crespa
Que lá em cima pouco brilha
E não se vê ninguém
Que me deixe aprender sozinho
Põe-me os óculos, Mariposa
Leva-me daqui para fora

terça-feira, 1 de abril de 2014

Gosto de carneiro
Com corda permanente
Ligado à corrente
Não se perde na calenda

Dez mil passos a pé
Gastam gastam gastam
Dez mil passos a pé
Guardam-te as sandálias
De lanídeo almiscarado
A realidade
Não me mete medo
É uma colher inibidora
Como outro utensílio comparável
Sei que um dia vai parar
E largar-nos no passeio
Gosto deste mundo sem fios
Chove outra vez
Vou pôr o lixo a secar
Em caso de náusea
Parta o iogurte
Na temporada onze
Onde vi um lagarto no muro
Bandos de tubarões tristes
Flutuaram na piscina
Inflados do teu gás
Vou imolar-me com cloro
Já não é preciso nada
Andreia, estou a pensar para mim
Não ponhas picante no sumo das outras
Derrete-te antes no meu licor
Que não embriaga uma lesma
Não são maneiras de começar uma guerra
Somos lobos, é verdade
E a janela foi lançada ao lobos
Como uma posta de carne
Atacou-me pelas costas
E fiz-lhe frente sozinha
Que marcas me deixaste?
É mentira
Adeus, janela minha
Sou um garfo inspirado
Olhem para mim
Estou quase a acabar
Hoje soube que estava tudo bem
Não soube nada
E lavei-me debaixo da pele
Com o melhor detergente
A vigília
É diluidora
Da igualdade
A fartura
É engomadora
Da liberdade
A preguiça
Depois do almoço
A desvergonha
É um colectivo de cabras mimadas
É por isso
Que vamos jogar à espada
É uma ilha
É uma ilha
É uma ilha, estúpido
Começar uma frase por bem
Não a torna boa
Só há decência nas palavras
Pudim, espadachim e alicate
Trouxeste-me ambientador
Amigo das plantas
Não te consegui o obrigado
Tu pensavas que eu não era capaz
De dizer o nome desta gente toda
É bem feita
Para a tua cara de cratera
Enquanto subo ao Vesúvio
Vais serrando os apertos de mão
Medir tudo em vidas
Em campos e mundos
Faz mal aos meus dedos
É pasto para a vergonha
Emagrece famílias

Deixar a janela aberta
Não é mentira
Sentar à máquina
Não é batota
É matar a fome


Cansado do mesmo azul de sempre?
Não é normal.

sábado, 19 de março de 2011

Sonho quatro

Sempre sem reparar no rapaz de caracóis, continuei o diálogo com Andrerens. Que bom voltar a ver amigos de há tanto tempo. Não tenho estado contigo. Eu também não, sabes. É natural. Tenho é estado com a Catarina. Está na mesma. Eu acho que está igual. Pois, essa não melhora nem piora. Igualzinha ao que era na escola, quanto a mim. Vamos é afinar isto que está quase na hora. Somos instrumentos de precisão, que raio. Somos bestas do espectáculo, afinal. Cangurus de palco, feras de carga, só estamos bem a caminhar sobre o fio e com os harmónicos ali, pimba, todos no sítio.

O teu já está? Só mais um toquezinho aqui. Embora. Lá está ele a exibir-se mais um bocadinho. Como um melro que dá o alerta, a amiga do rapaz de caracóis ia lentamente insinuando a conversa. Jonatã continuava sem olhar para mim, seguindo o seu raciocínio de costas com costas, como se estivéssemos os dois numa espécie de confessionário trocado, eu a apertar os parafusos e ele embrenhado num murmúrio que só a custo entendi. Têm de conhecer o Jonatã, dizia ela, enquanto o rapaz continuava o recito. “O meu pei, o meu pei, aquilo é que era um pei!”, dizia num atropelo de comoções. Eu, voltado para Andrerens, permanecia em tom de aquecimento.

Sabes que todas as irmãs mais novas dos meus amigos têm o nome de Inês. A sério? Parece impossível, deve ter sido o nome típico das segundas filhas nessa altura. Pois, tens razão, eu também era para me chamar Inês, mas depois tiveram um rapaz. Entendo-te, se tivesse os nomes das minhas avós, seria Libânia ou Emília. Formidável.

“O meu pei construiu esta casa com as duas mãos.” Alto. Isso não são modos de um convidado. Saiba o jovem que esta casa é da minha família. Passaram todas as férias aqui desde os anos 70. Decido-me a mostrar-lhe as fotos desses Verões azarados, ora deixadas sobre os móveis ou bem apertadas dentro das gavetas da cardência.

Já descomposto, Jonatã deita as mãos aos álbuns. “Ele está aqui”. Remexe nos sacos de lojas, perde-se em coisas de escola impecavelmente organizadas, ou plásticos com cartões de boas festas por preencher. “Eu sei que ele está”. Farto da cena, tento lembrar-me do nome.

João.

Não.

Jonathan, digo no meu melhor inglês. Sai pelo arco da varanda para o jardim, já desorientado, ou talvez atraído pelo cheiro a sardinhas. Lá fora, os outros músicos discutem o estado da relva e a hora a que o sol se põe, para que não bata muito de frente quando chegar a altura. Saio também e puxo-o pelo braço. “O meu nome é Jonatã”. Está bem, mas não me desarrumes muito as coisas que a minha mãe tem isso tudo no sítio.

A 18 de Maio de 1980, às 11h30, a lava assentou sobre a colina, exactamente um dia e um mês depois da erupção. Deu um pinheiro e uma macieira.

terça-feira, 1 de março de 2011

Preciso de um. Fato-de-treino.